Os casos de suicídio atingiram um nível recorde no país. De acordo com informações do Ministério da Saúde, em 2016 (último ano com dados disponíveis) foram registrados 11.433 óbitos por “lesões autoprovocadas intencionalmente”, como consta na Classificação internacional de doenças  (CID-10). Isso dá uma média de 31 mortes por dia e aponta para o recorde da série histórica iniciada em 1979. 
Apenas no Paraná, as informações do Datasus (uma espécie de banco de dados do Ministério da Saúde) revelam 768 casos no último ano, com dois registros por dia, em média. Desde 1979, um total de 20.910 paranaenses deram cabo à própria vida, o equivalente a 7,9% dos 263.462 óbitos verificados em todo o país nesses 38 anos.
No Brasil, desde 2003 o número de suicídios tem crescido ano a ano. A redução verificada em 2002, contudo, foi de apenas 0,16% (7.726 ocorrências contra 7.738 em 2001). Já  última queda mais significativa ocorreu em 1999 (-6,57%). 
No Paraná, os números até chegaram a cair em anos recentes, como 2014 (-4,72%) e 2010 (-10,45%). Mas em 2015 e 2016 registraram avanços importantes, de 15,18% e 6,52%. Já em todo o território nacional, o crescimento nos últimos dois anos da análise foi de 4,93% e 2,28%, respectivamente.
Queda da subnotificação
De acordo com a psicóloga Raphaela Ropelato, o aumento nos índices de suicídio refletem dois fatores: o aumento da notificação e também a crescente do problema em decorrência de fatores externos, como o estresse. Ainda segundo a especialista, os grandes centros urbanos acabam sendo os mais afetados. São os casos de Curitiba e Londrina, os dois municípios campeões em notificações no caso paranaense.
“A gente vive um mundo cada vez mais difícil, em que as pessoas sofrem com uma pressão muito grande por expectativas, e a própria sociedade impõe isso. Muitas vezes essas pessoas não sabem como agir diante das dificuldades e acabam cedendo. E há também a questão do isolamento social”, afirma.
Impacto da crise
Divulgado em setembro do ano passado, uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) sobre austeridade e saúde diagnosticou, a partir da análise de estudos feitos em diversos países, que as crises econômicas e o consequente crescimento das taxas de desemprego aumentam o risco do suicídio.
Em momentos de crise, aponta a autora da análise, Fabiola Sulpino Vieira, a demanda por atendimento de saúde cresce tanto pela degradação das condições de saúde quanto pela dificuldade de ter acesso a um serviço privado. Por isso, a possibilidade de ocorrência de suicídios pode aumentar com a adoção de políticas de austeridade.
“A crise gera uma série de problemas, à medida que você provoca uma situação de instabilidade muito forte. Quando vem a austeridade, que geralmente vem por meio do corte de despesas da área social, você acaba tirando possibilidades de mitigação dos efeitos da crise na vida das pessoas”, explica Fabiola.
Após analisar vários países que enfrentaram crises ao longo da história, a pesquisadora concluiu que aqueles que mantiveram políticas de reinserção das pessoas no mercado de trabalho e renda mínima, além de serviços públicos de saúde e educação, “não só mitigaram os efeitos da crise sobre a situação de saúde das pessoas, como também tiveram resultado em conseguir retomar o crescimento econômico em um prazo mais curto do que os que adotaram a austeridade”.

Crescimento em todas as faixas etárias
Chama a atenção nos dados do Ministério da Saúde, ainda, o fato de ter sido registrada alta nos óbitos por lesões autoprovocadas em todas as faixas etárias. Entre os menores de 14 anos, o crescimento verificado entre 1979 e 2016 no Brasil foi de 104,11%, com os casos de suicídios subindo de 73 para 149. Já entre os jovens com idade entre 15 e 19 anos o aumento foi de 91,37%, com o número de registros passando de 394 para 754.
As altas mais significativas, porém, foi entre a população mais idosa. Entre as pessoas com 80 anos ou mais, por exemplo, a variação no período analisado chegou a 594,87%, com 271 mortes em 2016 contra 39 em 1979. Com relação àqueles com 60 a 69 anos, a variação também foi positiva, de 408,76% (de 217 para 1.104 óbitos), o que se repetiu  para as demais faixas etárias: entre 70 e 79 anos (356,62%), 50 a 59 anos (363,24%), 40 a 49 (313,83%), 30 a 39 (256,51%) e 20 a 29 (113,18%).  

Ligação gratuita para prevenir mortes
Ligações para o Centro de Valorização da Vida (CVV), que auxilia na prevenção do suicídio, passaram a ser gratuitas em todo o país. Um acordo de cooperação técnica com o Ministério da Saúde, assinado em 2017, permitiu o acesso gratuito ao serviço, prestado pelo telefone 188.
Por meio do número, pessoas que sofrem de ansiedade, depressão ou que correm risco de cometer suicídio conversam com voluntários da instituição e são aconselhados. Antes, o serviço era cobrado e prestado por meio do 141.
A ligação gratuita para o CVV começou a ser implantada em Santa Maria (RS), há quatro anos, após o incêndio na boate Kiss, que matou 242 jovens. O centro existe há 55 anos e tem mais de 2 mil voluntários atuando na prevenção ao suicídio. A assistência também é prestada pessoalmente, por e-mail ou chat.