Maria Bugalho, de 55 anos, viu a filha Marilei Kazmiroski, de 19 anos, ser morta pelo ex-companheiro dela, José Lucas de Oliveira, na porta da casa dela. Ao tentar socorrer a filha, acabou baleada no rosto. O crime aconteceu em agosto de 2016, em Ampére, no sudoeste do Paraná.
"Matou ela na minha frente, é difícil essa cena, nunca mais vou esquecer", conta Maria, que cuida da neta Stefany, hoje com um ano e nove meses, e que tinha apenas 50 dias quando perdeu a mãe.
"O sorriso dela [da neta] é muito bom para mim, alegra o coração da gente. Não substitui a falta da mãe dela, mas dá esperança para a gente viver. Se não fosse pela nenê, não tinha como voltar mais. Porque perder uma filha, do jeito que eu perdi, na porta da minha casa, foi muito difícil", relata emocionada.
Na maior parte do tempo, Maria acompanhou o relacionamento da filha de longe, porque o ex-companheiro, José Lucas de Oliveira, não queria que ela tivesse muito contato com a família. Foram morar em outra cidade, Santo Antônio do Sudoeste, após quatro meses de namoro, quando Marilei engravidou.
O ciclo de abusos começou lá, quando ele proibia ela de sair do quarto nos períodos em que ele não estava na república de trabalhadores onde moravam. "Ele exigiu que ela ficasse no quarto, não saísse passear em lugar nenhum, não queria que ela saísse", afirmou.
Para o promotor de Justiça Ronaldo Costa Braga, de Londrina, no norte do Paraná, a violência contra a mulher é diferente de outros crimes, porque corresponde a um ciclo que quase nunca se encerra a um único ato. 
"Quando chegou o mês de maio, ele espancou ela bastante", lembra Maria, que calcula que a vítima estava com sete meses de gravidez. À época, a filha contou que o José Lucas chegou em casa bêbado e bateu nela.
Foi o início de um vai e volta do relacionamento. Marilei voltou várias vezes para a casa da mãe, sempre que brigava com o companheiro.
Em um dos episódios em que Marilei procurou abrigo na casa da família, José Lucas foi até lá e disse que se ela não voltasse para ele, iria tirar dela o que iria causar mais dor, e ameaçava de matar Maria e o marido, conforme o relato da mãe.
 
Cedendo às ameaças, Marilei deixou um bilhete dizendo que ia atrás da felicidade dela, mas a mãe acredita que, na verdade, ela voltou por medo que acontecesse algo com os pais. "Ela preferia sofrer do lado dele", disse.
 
Quando Stefany nasceu, Marilei estava com o companheiro, mas, vinte dias depois resolveu terminar o relacionamento e voltar para a família mais uma vez.
Na noite de 31 de agosto de 2016 ele foi até a casa e atirou contra a ex-companheira, que morreu na hora e, em seguida, atirou contra Maria, que foi atingida no rosto. A bala atravessou a mandíbula e saiu atrás da orelha.
 
"A única coisa que eu pedi para ele, foi que deixasse minha filha. Ele disse que deixava, mas morta", relembra Maria.
 
Além da dor de perder a filha, entre as sequelas, estão fragmentos de ossos no pescoço e perda parcial da audição.
Maria lembra que pediu para sair do hospital no dia seguinte ao crime. Ela disse que precisava cuidar da neta, que, até a noite anterior, estava se alimentando apenas do leite materno.
"Vesti uma roupa da mãe dela, para ela ter o cheiro pelo menos, para ela pegar a mamadeira. Foi difícil", contou.
Condenação
José Lucas de Oliveira foi condenado pelo júri popular a 30 anos e 4 meses de prisão pelo feminicídio de Marilei e tentativa pela de feminicídio contra a mãe dela. A sentença é de 7 de fevereiro deste ano.
Ele se apresentou à polícia em 7 de setembro de 2016, confessou o crime, e está preso desde então.
A condenação alivia um pouco a dor da família, mas não apaga o que aconteceu.
"Ele foi condenado e ele está vivo, e a minha filha que nunca mais eu vou ver, isso pra gente é duro, é difícil", lamenta Maria.
Maria ainda tira forças para fazer um apelo a outras mulheres vítimas de violência.
"Essas mulheres que são ameaçadas, que procurem a Justiça, denunciem para que não aconteça o que aconteceu com minha filha. Quando ela achou que veio para dentro da minha casa para se sentir segura, ele veio aqui e atirou contra ela", disse.