Firdda, Euis e Widi têm entre 15 e 17 anos, vestem jeans preto, camisetas estampadas com imagens de grupos de rock e empunham guitarras Marshall. Com elas em mãos, apresentam-se com sua banda, a VoB, em eventos de heavy metal de seu país, a Indonésia, com público majoritariamente masculino. Ao mesmo tempo que cantam hits de Metallica e Linkin Park, mostram composições próprias, escritas principalmente pela vocalista, Firdda. Poderia ser um conjunto adolescente (e feminino) como outro qualquer, a diferença da VoB é que suas integrantes são muçulmanas. Por baixo das camisetas, elas usam blusas de manga longa que escondem os braços e os cabelos são cobertos por jihabs. “Me apaixonei por heavy metal assim que ouvi pela primeira vez”, diz Firdda Kurnia, 17. Com grande talento nos vocais, ela teve de lutar para que a família, tradicional, a deixasse aderir ao estilo publicamente. Foi só quando começou a ficar famosa, tocar em festivais importantes de Jacarta (capital indonésia), como o Pentas Seni Dan Budaya e, por consequência, ganhar dinheiro, que os pais aceitaram a profissão da garota.

“Muita gente aqui acha que a música é satânica”, diz o empresário da VoB, Cep Ersa Eka Susila Satia, incentivador das meninas e também professor de música no Marasah Tsanaviah, tradicional colégio islâmico onde elas estudam, ao sul de Jacarta. Maior nação muçulmana do mundo (87% da população, ou 255 milhões de pessoas), a Indonésia não é exatamente um lugar fácil para as mulheres. Em equidade salarial, por exemplo, está na 92ª posição. Ainda é raríssimo ver o sexo feminino em posições de comando na política e no mercado de trabalho. O divórcio é desencorajado pois, apesar de permitido, a lei não obriga os homens a pagar pensão aos filhos. O que, no dia a dia, faz com que a responsabilidade emocional e financeira das crianças fique toda com a mãe.O cenário é desanimador: a liberdade religiosa no país não é uma realidade. Há uma onda conservadora que atinge a Indonésia desde o início dos anos 2000, que inclui diversos ataques terroristas a templos que não fazem parte da maioria religiosa. Até por isso, a iniciativa dessas três garotas é tão corajosa. “O heavy metal é a maneira perfeita de protestar contra esse sistema”, diz Firdda. Incentivadas pelo professor Satia, elas começaram a tocar em 2014 – a baixista, Widi Rachmawati, tem 15 anos, e a baterista, Euis Siti Aisyah, 17. O nome do grupo, VoB, é a abreviação de Voice of Baceprot (voz de baceprot) – baceprot significa “barulhento” em sudanês, a segunda língua mais falada na Indonésia, depois do javanês.

A VoB nasceu em Ciudian, cidade natal das garotas, onde elas são praticamente superstars. “Elas conseguiram chegar lá! São famosas”, dizem os pais de Firdda, inicialmente tão reticentes à sua carreira musical. Em suas letras, as meninas criticam o sistema educacional da Indonésia, que consideram antiquado e careta. Foi com esses protestos, aliás, que conquistaram um público cativo entre as adolescentes. Uma delas, na plateia do festival Pentas, Teti Putriwulandari Sari, celebra: “Não vejo nada de errado com elas”, diz Teti. “Não há nenhuma lei que impeça uma mulher com lenço na cabeça de tocar música, seja qual for o gênero. É um direito humano. Se uma jovem garota muçulmana tem talento, por que não pode se expressar?”Apesar do êxito, as três seguem sendo estudantes em tempo quase integral. Afinal, ainda são adolescentes, o que não permite que se dediquem 100% ao showbiz. Pelo menos por ora, os estudos de bateria seguem tão importantes quanto os livros. O que, para elas, já significa muito. Firdda, Euis e Wisi não têm a dimensão da esperança que suas canções e suas presenças, em uma sociedade tão conservadora, trazem para as garotas do país.