RIO — Desprendeu-se na Antártica um dos maiores icebergs já identificados pela ciência, informaram nesta quarta-feira os pesquisadores do Project Midas, que monitora a área. O bloco gigante que se soltou da plataforma de gelo Larsen C, a Oeste do continente, tem impressionantes 5,8 mil quilômetros quadrados, 200 metros de espessura e pesa mais de um trilhão de toneladas — o equivalente à área do Distrito Federal e a quatro vezes à área do município de São Paulo.

 
 

 

O satélite Aqua, dos Estados Unidos, foi o responsável por confirmar o já aguardado desprendimento, identificando um "canal" de água limpa entre o bloco e a plataforma. Mas cientistas do Project Midas já esperavam que o bloco de gelo se desprendesse. Eles acompanharam o desenvolvimento da fenda que começou a se abrir na borda da plataforma há mais de uma década.

 

O iceberg em números

Bloco de gelo tem área maior que o Distrito Federal

Oceano Atlântico

Ilhas Falkland

AMÉRICA

New

Schwabenland

Larsen Ice

Enderby

Queen

Maud

AMÉRICA

ÁFRICA

Palmer

American

Highland

ANTÁRTICA

ANTÁRTICA

Marie Bird

Wilkes

Victoria

OCEANIA

1000 km

N

Espessura:

13 km

190 metros

(cerca de 30 metros acima do nível do mar e espessura máxima de 210 metros)

31 mai 2017

ICEBERG

12 fev 2017

Evolução

da rachadura

Peso estimado:

1 trilhão de toneladas

Nov 2010

LARSEN ICE

Out 2015

Jun 2016

01 jan 2017

Área aproximada:

5.800 km²

Planaltina

ICEBERG

Brasília

Distrito

Federal

Taguatinga

Santa Maria

Fonte: NASA e Project Midas

Com o passar dos anos, a fenda foi avançando sobre o continente em trajetória curvilínea, até chegar a outro ponto do litoral, destacando uma parte da plataforma e soltando-a no mar do Pólo Sul. O processo se acelerou a partir de 2014. Este ano, a rachadura cresceu 17 quilômetros em apenas seis dias, de 25 a 31 de maio, e uma curva na estrutura de gelo indicou a iminência do rompimento. Na última medição, apenas 5 quilômetros seguravam o bloco

Como o bloco de gelo já estava flutuando sobre a água do mar, ligado ao resto da plataforma, seu desprendimento não vai provocar elevação do nível do mar, apesar de sua área representar 12% da plataforma Larsen C. O temor dos cientistas, porém, é que a plataforma comece a desmoronar, como aconteceu com as Larsen A e B, em 1995 e 2002, respectivamente.

— Isso resultou na aceleração dramática das geleiras atrás deles, e volumes maiores de gelo entraram no oceano e contribuíram para a elevação do nível do mar — explicou David Vaughan, do Instituto Britânico Antártico, à Reuters. — Se agora a Larsen C começar a recuar e, mais adiante, desmoronar, teremos outra contribuição.

Apesar de as regiões polares serem as mais afetadas pelo aquecimento global, o glaciologista Martin O'Leary, da Universidade Swansea, considera o desprendimento do iceberg um fenômeno natural, sem influência das mudanças climáticas.

— Não temos indicação de links com as mudanças climáticas, mas o evento coloca a plataforma de gelo em posição muito vulnerável — destacou O'Leary.

De acordo com os especialistas, o bloco de gelo não deve se mover para longe da Antártica no curto prazo. Mas será preciso monitorar a sua movimentação, porque correntes marinhas e ventos podem empurrá-lo para regiões com rotas marítimas e oferecer risco à navegação.

Imagem de satélite desta quarta-feira mostra a rachadura completa no iceberg - NASA

A península se encontra fora das principais rotas comerciais, mas é o principal destino de navios de turismo vindos da América do Sul. Em 2009, os cerca de 150 passageiros e tripulantes do MTV Explorer tiveram que ser resgatados após a embarcação se chocar contra um iceberg.

— O iceberg é um dos maiores registrados e seu progresso futuro é difícil de prever — destacou o professor Adrian Luckman, um dos cientistas do Project Midas, ligado à Universidade Swansea. — Ele pode continuar em um pedaço, mas é mais provável que se separe em fragmentos. Parte do gelo pode continuar na área durante décadas, e partes do iceberg podem flutuar para o norte e entrar em águas mais quentes.

Luckman traça duas possibilidades para o futuro da Larsen C. A plataforma pode, nos próximos meses e anos, avançar gradualmente e ampliar sua extensão, ou sofrer mais eventos como esse, e eventualmente entrar em colapso.

— Mas qualquer colapso futuro está a anos ou décadas — disse o pesquisador.